"Eu andava pelas ruas do centro à noite, já se passavam das 22 horas e o termômetro marcava 8ºC. Estava voltando pra casa, quando me deparei andando ao lado de um daqueles carrinhos que carregam papelão dirigido por um jovem que não passava da minha idade. O sereno machucava meu nariz pelo frio, e tudo que havia de descoberto em meu corpo estava gelado. Logo olhei para o lado, percebi-me andando em passos rápidos, pensando em minha casa. E como de praxe por mania dei boa noite aquele rapaz, sorrindo.
Até o momento nada de anormal, porém de repente... Meus sentidos travaram, e o frio que eu sentia não foi mais sentido, tudo a minha volta pareceu aguçado, senti Vida brotar do meu coração, e embora o frio fosse grande, senti calor em mim.
Parei por poucos segundos. Deus queria falar comigo, rápido e algo importante, que não poderia ser deixado pra depois!
Olhei para aquele jovem e sorri novamente como a alguns segundos atrás, e então pela primeira vez realmente o fundo dos seus olhos; eram olhos vazios, dolorosos e sem Deus. Em seu corpo havia poucas peças de roupa. Era esse pouco que o protegia do forte frio, perguntei:
-Frio não??
Ele sorriu.
-Você tá só com esse casaco? continuei.
Ele somente balançou a cabeça positivamente.
Devia estar pensando que eu era um idiota por estar perguntando aquilo, lógico que ele sentia o frio e se ele estava vestido com aquele agasalho era porque só tinha aquilo. E sobreveio sobre mim a dor do frio mesmo vestido, engoli seco minhas lágrimas e então pensei comigo que aquela era uma situação insustentável, pois o próprio Espirito de Deus havia me tocado naquele momento pela miséria de alguém, que como eu andava na rua a noite e era filho do mesmo Deus.
E naquela hora o que nos separava era um simples casaco. Naquele momento a única coisa que importava era o bendito casaco, e então enquanto eu o tirava, ao mesmo tempo Vida de Deus sobrevinha em mim, juntamente com coragem e amor.
De como se sentiu quando deu sua vida por nós, Ele realmente sentiu que precisávamos. E uma paz que vem de Deus e o mesmo Espirito que moveu Jesus me tomou naquele momento. Como seguidor de Cristo eu dei vida a alguém e não porque aquele casaco valia muito, eu dei vida porque dei-lhe parte de mim, parte do meu ego e conforto, nao somente dei-lhe o agasalho, mas também tomei pra mim o frio daquele jovem. E como as atitudes valem mais que palavras, eu não precisaria ter dito nada mais. Pois se eu estava dando parte de mim, Cristo ia com ele também e a benção de Deus andaria com aquele jovem por onde quer que ele fosse, e nada e nem ninguém poderia tirar aquela aliança entre mim, ele e Cristo.
Quando ele colocou aquele casaco, voltei pra casa mais vivo do que antes e ele com a certeza de que Deus o amava."
Texto de Christianno Barros - revisado e adaptado.


